segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

MIM


Por alguns momentos em minha vida, o anseio por mudanças pareceu gritar nos meus ouvidos.
E me entregando a esses anseios, ignorando tudo o que já fui e vivi, desordenadamente parti em busca de uma mudança que eu sabia que não era pra mim.
Achei que eu mesmo construiria o castelo que considerava ideal, independente de tudo e de todos, dependente apenas de mim e meu trabalho.
Simplesmente esqueci que tinha uma essência.
Simplesmente abandonei o que era de minha posse, privilegiando as coisas emprestadas.
Simplesmente esqueci que pra ser feliz, não me bastava apenas minhas escolhas, mas que às vezes, também devia ser escolhido.
Enfim, os anseios aleatórios me fizeram cair em armadilhas graves e caminhos sem volta.
Perceber que não sou o centro do universo já pode ser um bom caminho a seguir.
Quem sabe, estabelecendo a harmonia entre levar e me deixar levar, eu não reencontre tudo o que me faz tanta falta?
Peço licença e me aproprio das belas palavras de uma grande amiga: “O mais importante é notar que o que foi deixado lá dentro é a razão de tudo, e não o que foi buscado lá fora. Muito menos quem saiu. Este é só objeto de vicissitude que, se vier, vem pra deixar voar.”
E depois de tudo isso, percebo o quanto é difícil falar em primeira pessoa.
Ainda que saiba bem que todos os verbos que direciono pra mim, são, no fim, conjugados sempre em terceira.
Boa sorte, eu.

André Finhana

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

SONHOS

Qual o problema em sonhar?
Quando criança sonhei com muitas coisas, umas absurdas, outras nem tanto, outras absolutamente impossíveis, mas todas banhadas na inocência da infância, e até mesmo por isso esses sonhos me pareciam tão palpáveis.
Sonhei em ser bombeiro, em ser desenhista da Turma da Mônica, em ser motorista de caminhão e até em coisas estapafúrdias, como ser presidente da Nova Zelândia.
Fora do universo das profissões, bastava eu pôr a roupa do Super Homem que já me sentia com super poderes, ou ao comer alface, fazendo de conta que era espinafre, já saia pra desenhar uma âncora no braço e sair pela casa levantando coisas.
Na adolescência, quando ia dormir, colocava meus discos de heavy metal pra tocar nas faixas prediletas, deitava a cabeça no travesseiro e me imaginava o maior guitarrista do mundo, fazendo aqueles solos astronômicos com a maior facilidade, com os dedos leves e rápidos, vendo as pessoas delirando, se deleitando das minhas músicas, ainda que hoje já não as ache assim, tão agradáveis aos ouvidos.
Sonhar nos deixa equilibrados naquela linha tênue entre a felicidade e a decepção, sabemos bem disso.
Mas o que também sabemos, porém nem sempre lembramos, é que temos uma enorme capacidade pra realizar tudo o que sonhamos.
Isso mesmo, tudo, desde o menor e mais simples sonho até o mais longínquo e "inalcançável"; aquele que demanda um tempo e esforço bem maiores, maiores até mesmo do que achamos que podemos conseguir.
Todas as realizações da humanidade, foram, um dia, um simples pensamento, um simples devaneio de algum louco, utópico, que pensou em coisas que outros simplesmente descartariam, mas que ele acreditou e fez.
Hoje tenho muitos outros sonhos. Infelizmente, já não são mais tão inocentes e fantasiosos como os da deliciosa infância; são, inclusive, bem dolorosos e cheios de pressão, mas ainda assim são meus sonhos.
Sonho em resgatar coisas do passado, como uma identidade ou o mapa que me mostrava um caminho.
Todos os sonhos mais antigos já estiveram nas minhas mãos e, só por isso, prestes a serem realizados.
Com os de hoje, isso não muda em nada.
Os sonhos não estão diretamente ligados com a noite de sono e sim com anseios.
Mas pra facilitar, estabeleço esse paralelo apenas pra dizer que cada noite de sonho proporciona um novo dia de realizações.

E tenho certeza de uma coisa:
Se os sonhos também pudessem sonhar, sonhariam em ser realidade.
E é aí é que nós entramos.

André Finhana

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

CAMINHO

As derrotas nos ensinam muitas coisas.
Nos ensinam que há um momento certo para tomar decisões.
Nos ensinam que há decisões que, talvez, não devam ser tomadas.
Nos ensinam planejamento, análise de riscos e probabilidade.
Nos ensinam a ser persistentes, corajosos, medrosos ou teimosos.
Nos ensinam a hora certa de parar e de recomeçar.
Nos mostram os nossos limites, as nossas capacidades e a nossa força.
Nos ensinam a nos prepararmos e tomarmos mais cuidado numa próxima vez.
Nos ensinam que elas, as derrotas, estão sempre à espera de uma pequena falha nossa.
Mas também deixam claro que nunca são permanentes.
Nos ensinam a ser felizes a partir de uma tristeza.
E também nos mostram o quanto somos inteligentes para assumir a burrice que nos levou a determinada situação.
As derrotas são recheadas de paradoxos.
Doem e ensinam a cura.
Mostram o fundo do poço e obrigam a olhar e almejar o que há em cima.
Trazem o caos que consigo traz o cosmos.
E, principalmente, mostram a realidade, os cinquenta por cento para o certo e para o errado.
A vida é cheia de desafios, e são os desafios que dão graça e sentido a toda essa caminhada.
Aceitando os desafios, aceita-se os riscos.
As derrotas, ensinam a, mostram como, e de vez em quando, até mesmo obrigam a pensar.
Com as derrotas aprendemos muitas coisas.
Mas acho que de todos os aprendizados, com certeza o maior deles é o do caminho para as vitórias.

André Finhana

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

DE NOVO


Quem fala do amor, entrega-se ao risível.
Arrisca-se a virar o motivo da gargalhada do outro, não tem jeito.
Mas falar do amor é assim mesmo, complicado.
Pra falar do amor, precisa-se de lembranças.
Sabe, quando você consegue ficar sem fazer nada, abraçado na grama, no sofá ou na cama, e mesmo assim nem lembra que o tédio existe?
E quando você sente uma angústia danada, apenas por não ouvir a voz ou ver a sombra?
É engraçado e paradoxal, mas mesmo na hora onde a maior raiva do mundo impera, ainda assim você pode.
Um bolo de chocolate, uma bola colorida, um parque de diversões, um coelho de pelúcia ou um objeto absolutamente insignificante... para os outros.
Esse tipo de lembrança o torna apto a falar do amor.
Quer saber? Seja ridículo!
Permita-se ser motivo de piadas e se deixar levar por julgamentos vazios.
Ponha-se na linha de fogo das gozações, seja o mais bobo e o mais piégas de todos que o envolvem.

E saiba de uma coisa, uma vez por todas:
Quem fala do amor sofre tudo isso e, às vezes, muito mais.
Mas se serve de consolo, só se credencia a falar dele quem o vive.
É isso.

André Finhana

quinta-feira, 23 de julho de 2009

SIMPLES


Tudo me parece muito simples.
Ver o sol nascer estando rodeado de amigos, ouvir mais o barulho do mar, ver o sol se pôr, com os pés descalços, de bermuda e com os cabelos voando, comer brigadeiro de panela, pegar meu afilhado no colo, enchê-lo de beijos e falar com voz de criança, ficar o domingo inteiro deitado no sofá, abraçado e vendo tv, usar o carro só pra passear, tomar achocolatado, alugar um filme, compôr uma canção, ler meus livros, fazer um cafuné, torcer pelo meu time, ouvir mil vezes a minha canção predileta, chorar nas despedidas, sorrir nas chegadas, viajar, pular de barriga na piscina (serve ser jogado nela também), contar as piores piadas, rir delas até a barriga doer, fazer cócegas, falar palavras feias, falar palavras bonitas, fazer comparações, ver um tubarão numa nuvem, jogar videogame, namorar, beber cerveja, viver coisas boas, lembrar das coisas boas, tirar fotografias, pintar, ver desenho animado, ir ao cinema, ir ao teatro, festejar, lembrar, sorrir, brigar, amar, amar e amar.

Coisas simples, que de tão simples cabem numa frase.
Se você nunca viveu algo assim, tomara que ainda dê tempo.
Se já viveu, mas não deu o merecido valor, reze...
...e reflita.

André Finhana

segunda-feira, 1 de junho de 2009

BOM DIA


Hoje eu acordei meio poético.
Acordei dramatizando coisas simples, como escovar os dentes ou escolher uma roupa.
Acordei romantizando o soco no despertador e erotizando um automóvel sendo abastecido num posto de gasolina.
A música no meu fone de ouvido é a trilha sonora do que acontece ao meu redor e vou brincando de ator principal de um videoclipe que inventei.
Hoje fui despertado em versos.
O colchão rimava com a forma do meu corpo e meu travesseiro recitava palavras doces aos meus ouvidos.
Tudo o que era real não era atrativo. Queria ficar parado lendo e relendo esses versos, totalmente desencanado do que acontecia longe daquele mundo.
Queria e ainda quero fantasiar mais e mais, brincar de felicidade, sonhar com alguém, provocar um lindo sorriso, ser indispensável e inspirador, gostaria que sentissem saudades de mim, de ser atrativo de alguma forma e despertar vontade em estarem comigo, queria ser melhor a cada dia e corrigir meus inúmeros defeitos.
Hoje eu acordei vivendo ao extremo todos os meus sentimentos.
E ainda que tudo isso não passe de uma fantasia, queria acordar como hoje todas as manhãs.

André Finhana

domingo, 5 de abril de 2009

SE...


Se você está acostumado a se desculpar e a ser desculpado, pense como seria bom se isso não precisasse ser tão constante.
Se você se preocupa em manter uma imagem ou melhorar a que tem, repare bem nela e veja se é possível usá-la verdadeiramente como espelho.
Se você gosta de cuidar do outro, fazê-lo se sentir bem e sorrir, preste atenção na maneira como o faz, pois os verbos mentir e omitir, além de terem o mesmo sufixo, costumeiramente têm o mesmo efeito.
Se você pensa que o mundo seria melhor se todos fossem iguais a você, só tenha em mente se deveria tomar um cuidado maior ao aconselhar ou ser aconselhado.
Se você é do tipo sonhador e cultivador de utopias, não deixe de reparar que tudo é possível de ser realizado, desde que se tenha atitude.
Se você não consegue sair do lugar, tem o olho roxo de tanto apanhar e quebrar a cara, talvez esteja te faltando humildade para assumir sua fraqueza e necessidade de ajuda.
Se você não sabe no que vai dar ou acha que não vai dar, mas diz que vai, simplesmente não o faça. Você pode envolver e decepcionar alguém.
Se você subvaloriza suas atitudes ou faz coisas achando que ninguém está vendo, saiba que a teoria da invisibilidade só se transforma em lei aos olhos de quem não quer ver.
Se você, simplesmente, acha que é a melhor pessoa do mundo, o melhor amigo do universo e a mais confiável entre as pessoas, meu amigo, te digo claramente: Deu-se por iniciada a caminhada rumo à perda total dos seus amigos.
Me adianto deixando claro que é muito difícil, mas apenas para não fugir à regra, resumo a solução dos seus erros em uma única e bela palavra: Reconquista.

André Finhana